Viagem a Taizé
Pediram-me para contar a minha experiência da viagem a Taizé. Vou pegar numa página do Diário que me acompanhou e vou transcrever uma das últimas páginas do mesmo.
Para trás ficaram dias especiais que marcaram qualquer um dos presentes. Ninguém consegue ficar indiferente à experiência de Taizé. A surpresa infiltrou-se em mim logo no primeiro dia. À medida que vamos subindo a colina de Taizé até à comunidade, as imagens vão-nos surpreendendo, ainda com o sabor do desconhecido a turvar-nos o pensamento. Quando chegamos, a azáfama é já grande entre a comunidade. É domingo, dia em que chegam os grupos para passarem uma semana em Taizé. Somos recebidos com o inconfundível chá de Taizé, nas palavras de alguns: "é cá uma pomada!!".A igreja é algo de supreendente. Vista de fora, parecem vários edifícios independentes, o que me dificultou a percepção imediata de que se tratava realmente de uma igreja. Por dentro não existem bancos (que também não são precisos), é apenas um espaço vasto, sempre a descer até ao fundo, onde o laranja é a cor predominante. Fora das orações (muito se pode dizer em relação às orações... já lá vamos mais à frente), a igreja é dividida em salas mais pequenas que são usadas para os diferentes trabalhos do dia.Começamos por sentir alguma alegria misturada com surpresa e orgulho quando ouvimos alguém falar em português. "Olha, também são portugueses", dizemos. É a deixa para metermos um pouco de conversa, entre umas piadas ficamos a saber o nome e de onde vêm. Este pequeno momento passa a rotina durante a semana, sejam portugueses ou estrangeiros.Taizé tem um espírito próprio que se encontra, não só no magnífico ambiente da igreja nos momentos de oração, mas também em cada esquina que se cruza, em cada jovem que se encontra sozinho sentado no chão nas pequenas ruas com um livro na mão, nos pequenos grupos de reflexão que têm em comum "apenas" Deus, no chá bebido em pequenas malgas, na animação da tenda das refeições (para o qual muito contribuem os portugueses). A própria comida de Taizé faz parte do seu espírito, ninguém espera comer um jantar de 5 estrelas em Taizé... As noites do Oyak serão também momentos do espírito de Taizé. O Oyak é o pequeno bar da comunidade. É o único sítio em que se pode fazer barulho depois da oração da noite até às 23h30m. Pode parecer estranho, mas as noites no Oyak são elevadas a algo mais do que uma noite de diversão. É uma convergência única de países e culturas, músicas de várias pontos do mundo, brincadeiras que só fazem sentido em Taizé...Elejo sobretudo a segunda noite da semana que passei. De forma expontânea, numa das tendas por detrás do Oyak, juntou-se uma multidão de portugueses que cantavam músicas portuguesas com uma alegria fantástica, a bandeira estava presente e inevitavelmente o hino nacional apareceu para nos elevar o ego. Mas, em Taizé, as noites são curtas. Quando o Oyak fechou, por volta das 23h30m, estávamos ainda no máximo da animação. Foi difícil tirarem-nos de lá. Foi uma noite fantástica em que senti um orgulho, como poucas vezes tinha sentido, em ser português...No fundo, o espírito de Taizé é tudo aquilo que nos faz sentir uma saudade (essa palavra bem portuguesa) enorme na altura da partida.O dia-a-dia em Taizé, é passado entre esse espírito de Taizé, o dinamismo e a alegria própria da juventude e a vivência de um dia com Cristo sempre por perto. Para aqueles que, como eu, escolheram o grupo do aprofundamento bíblico, o dia é passado entre as introduções bíblicas com um irmão e os trabalhos de grupo.É, talvez, aqui que nos surpreendemos mais. Os pequenos grupos de reflexão são constituidos por jovens de diferentes países e culturas, e as diferenças e os contrastes acabam por surgir nas conversas. Contudo, é interessante como, independentemente do país de onde vêm, os jovens têm, basicamente, as mesmas preocupações e as mesmas dificuldades na vida com Cristo.Outra das grandes surpresas é verificar como é possível, se assim o quisermos, viver momentos de oração todos os dias. Em Taizé, existem três momentos diários de oração em comunidade, antes do pequeno-almoço, antes do almoço e depois do jantar. Uma oração de Taizé é algo de impressionante, quase se torna magia aquele momento, quando conseguimos estar perto de Deus como nunca tínhamos estado. Os cânticos, pequenos e repetitivos, contêm uma ideia base fortíssima. Quase dão a ideia de ser simples, mas não o são, antes pelo contrário, conduzem-nos o pensamento pelas mais diversas ideias. O ambiente na oração é fantástico, os cânticos, cantados por uma multidão de quatro mil pessoas, ganham outra dimensão e todos aqueles momentos se tornam mágicos.No fim, não somos obrigados a quebrar o momento e sair, podemos ficar na igreja, saboreando aquele ambiente, sentados, deitados, como quisermos...O pior foi o momento da despedida... Fica-se com aquela nostalgia, uma espécie de saudade antecipada. E torna-se tudo confuso, não temos a certeza de quem iremos sentir falta. A única certeza absoluta que se nota em todos, é a vontade de voltar um dia... Espero que isso aconteça realmente... porque as saudades são enormes.Taizé é quase que como um mundo que abafa aquele que nós conhecemos... apesar de ter o tamanho de uma aldeia. Numa semana vive-se mais do que num mês das nossas vidas habituais, somos bombardeados com estímulos a cada passo... novas ideias, novas opiniões, maneiras diferentes de ser e de viver...Mais que qualquer outra coisa, Taizé é um exemplo único do que é viver em comunidade, cada pessoa tem uma função dentro da comunidade que não lhe é imposta, mas simplesmente é aceite.Já me estou a alargar. Podia continuar para aqui a falar sobre Taizé, mas sei que nunca diria tudo o que tenho para dizer. Taizé é algo tão simples que é complicadíssimo explicar. Quem já viveu a experiência, sabe do que estou a falar. Quem ainda não a viveu, resta-lhe experimentar.Deixo um pequeno cântico de Taizé."Tu sei sorgente viva, tu sei fuoco, sei carità. Vieni Spirito Santo, vieni Spirito Santo."
in, João Gomes